A educação pública municipal de Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém, atravessa um dos momentos mais delicados dos últimos anos. Professores da rede decidiram entrar em greve por tempo indeterminado a partir de 4 de março de 2026, após fracasso nas negociações com a Prefeitura. A decisão foi tomada em assembleia do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação Pública do Pará (Sintepp), subsede Ananindeua, diante da ausência de propostas consideradas concretas pela categoria.
Segundo o sindicato, o reajuste apresentado pela gestão municipal não recompõe as perdas inflacionárias acumuladas e não contempla a valorização profissional defendida pelos docentes. A paralisação surge em meio a um cenário de insatisfação crescente, que vai além da questão salarial.
As reivindicações incluem a valorização dos vencimentos, a reestruturação da carreira, a aplicação integral da lei do descongela, a realização de concurso público para substituir contratos temporários e melhorias urgentes nas condições de trabalho. Também estão na pauta a contratação de auxiliares e acompanhantes para alunos com deficiência e investimentos na infraestrutura das escolas.
Além disso, professores denunciam o que classificam como violência institucional. Há relatos de assédio no ambiente escolar, abertura de sindicâncias vistas como punitivas e tentativas de enfraquecer a mobilização sindical, o que tem ampliado o desgaste entre a categoria e a administração municipal.
Problemas estruturais agravam o impasse
Denúncias recentes apontam um quadro de precariedade em diversas unidades da rede municipal. Professores e pais relatam salas de aula sem ventilação adequada, calor excessivo, infiltrações, goteiras e prédios antigos sem reformas. Em algumas escolas, há superlotação, ausência de espaços para atividades físicas, mato alto e acúmulo de lixo nos arredores, elevando riscos à saúde e à segurança.
Há ainda casos de prédios alugados com atrasos de pagamento e manutenção improvisada. Em determinadas unidades, aulas chegaram a ser suspensas por semanas devido à falta de professores e substituições, além da ausência de suporte adequado para estudantes com Transtorno do Espectro Autista.
Fiscalização e educação inclusiva em debate
O movimento ocorre em um contexto mais amplo de críticas à situação da rede municipal. Pais, responsáveis e órgãos de fiscalização, como o Ministério Público do Pará, já receberam denúncias sobre problemas graves de infraestrutura, incluindo esgoto a céu aberto próximo às salas de aula e fiações expostas.
Na área da educação inclusiva, famílias denunciam que, apesar da aceitação de matrículas de alunos com necessidades especiais, faltam profissionais qualificados e acompanhantes especializados. A ausência desse suporte compromete o aprendizado, o bem-estar e a permanência desses estudantes nas escolas.
Salários, carreira e futuro da rede
A valorização profissional segue como um dos eixos centrais do conflito. Embora a Prefeitura tenha anunciado reajustes acima do piso nacional em anos anteriores e também para 2026, os docentes afirmam que as medidas não refletem as perdas acumuladas nem atendem às demandas da categoria. Eles também cobram a atualização do Plano de Cargos, Carreiras e Remunerações, considerado defasado.
Para os professores, a greve e as mobilizações não representam apenas uma disputa salarial, mas o reflexo de uma crise estrutural na educação municipal. Infraestrutura deteriorada, falhas na gestão, ausência de políticas efetivas de inclusão e dificuldades no diálogo com a administração colocam em xeque a qualidade do ensino e a confiança das famílias na rede pública de Ananindeua.







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