A Guerra do Futebol, também conhecida como a “Guerra das 100 Horas”, foi um conflito armado entre El Salvador e Honduras em julho de 1969. Embora o nome sugira que a guerra tenha sido causada por uma disputa esportiva, a realidade é muito mais complexa. As tensões entre os dois países já vinham crescendo há anos, e os jogos de futebol entre suas seleções nacionais serviram apenas como o estopim para um conflito que já estava prestes a explodir.
Contexto Histórico: O Estopim de uma Guerra
Nos anos 1960, El Salvador enfrentava um grave problema de superpopulação. Com um território pequeno e poucos recursos, muitos salvadorenhos migraram para Honduras em busca de terras e oportunidades. Estima-se que cerca de 300 mil salvadorenhos viviam em Honduras na época. Esse fluxo migratório gerou tensões com os hondurenhos locais, que viam os imigrantes como uma ameaça econômica e social.
Para piorar a situação, em 1969, o governo de Honduras implementou uma reforma agrária que afetava diretamente os imigrantes salvadorenhos. Muitos perderam suas terras e foram forçados a retornar a El Salvador, aumentando a pressão política entre os dois países. Esse cenário de hostilidade e ressentimento tornou-se ainda mais intenso quando as seleções nacionais de Honduras e El Salvador se enfrentaram nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1970.
Além das disputas políticas, os confrontos esportivos entre as seleções foram marcados por violência e hostilidade. Torcedores hondurenhos passaram a perseguir jogadores e adeptos salvadorenhos antes e depois das partidas. Hotéis onde os jogadores salvadorenhos estavam hospedados foram cercados por torcedores que faziam barulho durante toda a noite para impedir que dormissem. Fogos de artifício foram estourados, pedras foram jogadas contra os vidros e os atletas foram alvo de insultos constantes. No segundo jogo, em El Salvador, os torcedores locais responderam na mesma moeda. O hotel da seleção hondurenha foi cercado por multidões que gritavam ameaças, apitavam e faziam barulho durante toda a noite. Ambos os times entraram em campo exaustos e sob forte pressão psicológica.
Um dos episódios mais chocantes ocorreu após a derrota de El Salvador no primeiro jogo, em Tegucigalpa. Uma jovem salvadorenha, Amelia Bolaños, ficou tão abalada com a derrota que se suicidou com um tiro no coração. Seu funeral foi transmitido pela televisão nacional e a tragédia comoveu a população salvadorenha, aumentando ainda mais o ódio contra Honduras. A jovem foi tratada como uma mártir do nacionalismo salvadorenho, e sua morte inflamou ainda mais os ânimos antes do jogo de volta.

As Partidas que Incendiaram a Rivalidade
A classificação para a Copa do Mundo do México de 1970 colocou El Salvador e Honduras frente a frente em uma melhor de três partidas decisivas:
- Primeiro Jogo – 8 de junho de 1969 (Honduras): Em Tegucigalpa, Honduras venceu por 1 a 0. O ambiente já era hostil, com relatos de que torcedores hondurenhos hostilizavam a delegação salvadorenha, provocando grande revolta. A vitória hondurenha foi recebida com celebrações em seu território, mas com profunda indignação em El Salvador, onde a morte de Amelia Bolaños intensificou o ódio nacionalista.
- Segundo Jogo – 15 de junho de 1969 (El Salvador): Em San Salvador, El Salvador venceu por 3 a 0. Os torcedores salvadorenhos revidaram com ainda mais agressividade, cercando o hotel da seleção hondurenha, atacando jogadores e criando um ambiente de puro terror. Durante a execução do hino de Honduras antes do jogo, a bandeira do país vizinho foi arrancada e substituída por um trapo velho, um gesto humilhante que reforçou ainda mais o rancor entre as nações.
- Terceiro Jogo – 27 de junho de 1969 (México – Campo Neutro): Para decidir quem se classificaria, um terceiro jogo foi realizado na Cidade do México. El Salvador venceu por 3 a 2 e garantiu sua vaga na Copa do Mundo. Apesar do campo neutro, a tensão entre os jogadores era visível. Muitos entraram em campo desgastados emocionalmente pelos eventos que cercaram os confrontos anteriores.
Um dia antes do jogo El Salvador rompeu relações diplomáticas com Honduras. No dia seguinte ao jogo, os confrontos violentos entre civis hondurenhos e salvadorenhos atingiram seu auge, levando os governos a tomarem medidas extremas.
O Conflito Armado: A Guerra das 100 Horas
No dia 14 de julho de 1969, poucas semanas após o terceiro jogo, tropas salvadorenhas invadiram Honduras. A guerra durou apenas quatro dias, mas foi extremamente violenta. Bombardeios atingiram cidades hondurenhas, e combates terrestres foram travados na fronteira entre os dois países.
A Organização dos Estados Americanos (OEA) interveio rapidamente e, no dia 18 de julho, forçou um cessar-fogo. Mesmo assim, os efeitos do conflito foram devastadores. Estima-se que entre 2.000 e 6.000 pessoas tenham morrido e cerca de 100.000 refugiados salvadorenhos foram expulsos de Honduras.

Consequências da Guerra
Apesar do curto período de duração, a Guerra das 100 Horas deixou sequelas profundas:
- O conflito agravou ainda mais a crise econômica e social em ambos os países.
- A fronteira entre El Salvador e Honduras permaneceu fechada por mais de uma década.
- As relações diplomáticas entre os dois países só foram normalizadas nos anos 1980.
- A guerra impulsionou o crescimento do exército salvadorenho, o que contribuiu para a posterior Guerra Civil de El Salvador (1980-1992).
Conclusão: O Futebol Foi Apenas a Faísca
Apesar do nome “Guerra do Futebol”, o conflito entre El Salvador e Honduras não foi causado apenas pelo esporte. O futebol apenas serviu como catalisador para uma crise que já estava em ebulição. A verdadeira razão estava nas desigualdades econômicas, disputas territoriais e no ressentimento histórico entre os dois países.
O caso da Guerra das 100 Horas mostra como o esporte pode ser um reflexo das tensões políticas e sociais de um país. O futebol, que deveria unir nações, acabou servindo de gatilho para um dos conflitos mais marcantes da América Latina.
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